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uma ficção

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  É tão lindo e tão cintilante o teu olhar. Eu poderia gastar tantas palavras, criar tantas histórias para descrever o amor que transcrevo em meu corpo apagado e deturpado por tanta dor acumulada. Fisicamente, a minha carne caiu e continua caindo, procurando a última batida das músicas da tua banda favorita, The Lumineers, tocadas em teu antigo walkman amarelo. As tuas danças fazem-me desejar elevar as estrelas, levá-las comigo até os confins da realidade e poder lembrar do teu sorriso enquanto fazias tudo aquilo de que gostavas quando estavas comigo. Tudo parece tão mágico para quem nunca acreditou em magia. A tua presença vira a minha cabeça e faz-me questionar tudo em que acreditei durante todo este tempo. Ela é tão irreal que me pergunto o que foi colocado em ti para fazer-me prestar atenção em cada detalhe: nas calças jeans largas, nas camisetas maiores do que os teus próprios pulsos e, em ti, na pele que parece combinar mais com os ossos do que a de qualquer outra pessoa. Eu ...

Logo, já não sou eu quem vive...

  Ele está em todos os lugares: na literatura, na música, na cultura, em cada canto do mundo. A sua Palavra nunca tem fim e nunca morreu; sempre permaneceu. Mas não conseguimos enxergar. Estamos cegos e contaminados pelo vazio. O mundo é barulhento e nos afoga em informações, a ponto de mal conseguirmos ouvir as palavras da missa, absorver o evangelho ou deixá-lo penetrar no coração sem esquecermos o que foi dito pelos sacerdotes. É uma profecia verdadeira e única: gerações passam, mas a Palavra permanece intacta. Eu precisei da dor, das quedas, do sofrimento e de encarar minha própria ruína. Rolei na lama e vi o quanto minha carne é podre, o quanto sou indigno de chamar pelo seu nome. Como Ícaro, voei alto demais e tentei alcançar o sol antes da hora, sem antes buscar o que era necessário: as palavras, o Verbo encarnado, a Eucaristia. Não se busca a luz sem aquele que é a própria luz. Como alcançar o seu rosto sem antes conhecê-lo, sem conhecer os seus amigos? Como viver sem senti...

She's a butterfly, but I'm just a shadow

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  As lembranças que contarei aqui são de um tempo não tão distante, mas dentro de mim é como se tivessem sido vividas em outrora. Um tempo em que a amizade era concreta e nada líquida, onde a literatura reinava em pequenos rolos de papel, e existiam cartas cheias de sentimentos vindos de um mundo que parece extinto. Essa não é uma história de amor romântico. Não há grandes paixões nem reviravoltas cinematográficas. Não há uma Manic Pixie Dream Girl , tampouco promessas de um final feliz entre duas pessoas que se amam como nos filmes. É uma história sobre uma amizade rara, com uma mulher real, numa realidade pé no chão, com sentimentos sinceros. Está mais próxima das páginas de O garoto, a toupeira, a raposa e o cavalo . Mas aqui, talvez seja mais justo chamar de o garoto e a borboleta . Tudo começou numa noite chuvosa. Eu a encontrei em um beco escuro. Estava frio, os pingos de chuva eram pesados e caíam como se quisessem atravessar minha alma. Naquela noite, eu não esperava por na...

aplauso em um assento só

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  aquele dia, simplesmente aquele, em que a alvorada se desenhava trêmula sobre a pele do tempo, o vento de outono passava como uma história antiga, e embora o sol estivesse partindo, não puderam obscurecer o fulgor do instante nem ensombrecer os nossos corações. era como se o universo inteiro dançasse ao ritmo da minha memória. aquele momento em que o homem tenta, em vão, conter o tempo entre os dedos e remodelar as lembranças como Van Gogh teima em colorir a realidade com tons mais densos, mais felizes, mais seus. alguns desejam viver um só traço de eternidade nas águas cintilantes de algum paraíso burguês, sob o verniz caro de um verão de cartão-postal. mas, ao final, tudo se dissipava como névoa de fim de tarde, tão turvo e inconstante quanto os corações à beira da despedida. o meu instante, ao contrário, aconteceu no mais sagrado de um casinha: um quintal de chão vivido, onde as árvores guardam histórias em suas cascas e o ar conserva, com pudor, o cheiro das vozes que amei. ...

em teus braços

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uma mãe alimenta com o corpo, com o medo, com o futuro nos braços dela a gente aprende o nome do mundo antes de aprender a dizer o nosso é quente, é forte é prisão que não aprisiona é cuidado que às vezes dói e depois se chama amor mas a tia - ah, a tia é outra coisa a tia não tem lugar certo no coração ela escorrega por entre as regras e inventa novas tia é liberdade com cheiro de bolo quente e doce antes do almoço é arte permitida bagunça autorizada e castigo que nunca chegou a chinela era da mãe mas o sorriso era da tia tia é irmã da mãe mas também irmã da infância é mulher sem útero que gera laços de um jeito tão fundo que só o abraço explica a semana vira saudade o fim de semana vira chegada e a chegada vira colo e o colo vira amor tia ama como mãe e o sobrinho ama como filho sem saber que está amando porque já está e não tem nome que caiba então a gente chama de tia mas sabe - lá dentro no lugar onde não tem palavra é mãe também tia é a...

Quando os sinos não tocam

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   Não sei mais se os sinos tocaram ou se fui eu que inventei o som para não me sentir tão sozinho. não sei quem fui, nem quem foram os outros. apenas sei que a nostalgia passou. e ficou a saudade como um frio que se cola na pele e não sai nem com o sol do meio-dia. é como o inverno: a gente esquece o dia exato em que ele chegou, mas nunca esquece o que ele fez com o nosso corpo. sempre preferi as despedidas. elas não mentem. a chegada vem bonita mas já vem com prazo de validade. a despedida não. a despedida é a única coisa que dura. um dia me calei. e nunca mais consegui falar do passado sem tremer por dentro. tudo parou. tudo ficou parado em mim. como se as lembranças tivessem sido soterradas por neve. a minha boca se calou porque não havia mais história. não havia mais o que dizer, nem dor para sentir. e eu me culpei por isso. por calar. e me culpo ainda mais por escrever agora. como se as palavras machucassem mais do que o silêncio. peço perdão. pelo que não d...

Testamento de um Filho à Sua Mãe e à Mãe de Deus

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Mãe, Não escrevo estas palavras para adornar o tempo, mas como quem, à beira da solidão, deixa um vestígio de si antes que o vento apague tudo. Cada sílaba aqui sangra. Não é uma carta, é testamento. E se falo, é porque talvez amanhã o silêncio me tome por inteiro. A humanidade inteira conhece a cruz. Está estampada em paredes, rosários, corpos... mas quantos realmente a contemplam com o coração dilacerado que ela exige? Ficam na estética do símbolo, esquecem que ali suspendeu-se o próprio Deus. E que, aos pés desse madeiro, sangrou com Ele uma mulher. Não uma qualquer. A Mãe. Maria: silente, rasgada por dentro, mas de pé. O mundo desabava em gritos e açoites, e ela permanecia, firme como raiz no invisível. A espada prometida por Simeão transpassava-lhe a alma. No seu olhar, a dor de todas as mães do mundo: das que enterram filhos, das que são esquecidas, das que não têm colo para chorar. Foi ali, no alto do Gólgota, que o Filho, entre o céu e a terra, ofertou-nos a sua Mãe. “Eis aí tu...