Um ausente sem ausência
Desbravo o tempo de um pai que passou. Minha infância ainda se recorda de pequenos detalhes: seus divertimentos, suas bagunças, suas aventuras e aqueles momentos que pertencem a um tempo que não volta mais. Mesmo que revisitemos essas lembranças, nunca conseguimos viver novamente aquilo que um dia foi e já não é. Eram tardes de verão correndo pelas ruas, sentindo nos braços de uma criança a proteção de alguém que, com tudo o que viveu, ensinava e tentava blindá-la dos perigos que a vida oferece aos pequenos. A infância precisa acreditar que existe um super-herói para chamar de pai; nela não há espaço para vilões. Aquele tempo era como abraçar o inverno. Eram chegadas de lugares que já não recordo, mas cujo cheiro permaneceu preso ao vento e à memória. Ainda sinto na pele o algodão das roupas, o couro dos casacos e a presença daquelas noites que nunca mais poderão ser vividas da mesma maneira. O que ficou foi até mesmo o cheiro de um perfume ruim, mas aprendi a amar esse de...