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Em Redenção

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  ... Existia um rasgo em seu peito. Antes, parecia apenas um fio de lã solto; porém, quando foi puxado, revelou a dor de um filho — uma dor jamais explorada, mantida no passado, guardada dentro de um velho baú. Ali repousava outro pedaço de seu coração. Foi preciso retirá-lo do fundo daquela madeira antiga e empoeirada. Era a parte que faltava em seu peito. Ainda assim, ele relutava em colocá-la de volta em seu devido lugar. Faltava fazê-la pulsar novamente, devolver-lhe a vida para que pudesse transbordar em existência. O passado daquele filho era feito de lamentos. Faltava-lhe uma figura essencial em sua vida. Essa presença, ou sua ausência, sempre esteve em todos os momentos da história, na vida de cada ser humano. Pode surgir como uma caricatura da maldade ou da bondade; pode aparecer para causar terror ou oferecer esperança a um pequeno e indefeso ser, que necessita da proteção daquela mesma figura. Há tantos filhos perdidos neste mundo, vagando por terras e mares. Há tantas ...

a queda dos murmuradores

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Vida infeliz é a do homem que murmura, Nada lhe agrada: o mundo é sempre fútil, a cultura, um monturo de misérias. que jamais descansa do próprio protesto. Vive descontente nada o satisfaz, nenhum riso lhe penetra o silêncio. Cada instante busca um bode expiatório: o tempo, o destino, a culpa alheia. Para ele, os outros são demônios vestidos de gente; o líder, o partido, o fantasma político são a raiz de todas as frustrações. Nunca olha para dentro - onde a cura começa. Pergunta: será o líder sindical a razão de suas dores, ou é Cristo que não foi permitido entrar? Nada que venha do céu passa por suas mãos; recusa-se o remédio, acolhe-se a acusação. Como explicar que se reza com os lábios e se cuspem as promessas? Que se aclama um homem e se perdoa a mentira? Que se defende a vida com intolerância, ou se indica salvação negada a quem pensa diferente? Há um cristianismo de porta aberta e silêncio, e há um outro que bate o punho e vende raiva. Não é santo o q...

estagiário

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  Sexta-feira, sete e meia da manhã, acordo, ligo o computador e espero o café da minha mãe. Às oito já começam os atendimentos. Enquanto isso, deixo sempre um livro aberto ao lado da aba, para ler nos momentos de pausa. Não sou rápido como os outros, mas sigo no meu ritmo, no meu limite. E, no fundo, acho que isso basta. O home office, para mim, foi uma das maiores invenções que já existiram. Trabalhar em casa me dá um tipo de conforto que nenhum outro lugar poderia dar. Faço o sinal da cruz e desejo não sentir um peso ao fazer o que é necessário.  Confesso que muitas vezes faço quase no automático. Sei pouco do que deveria saber e, quando não sei, improviso. Às vezes falta orientação, às vezes o sistema falha, e fico com a sensação de que preciso inventar o caminho sozinho. Pode ser que eu me cobre demais, mas há dias em que me sinto perdido, incapaz. E mesmo assim, sigo. No remoto, encontro segurança. Eu não gosto de barulho, de aglomeração, de me sentir obrigado a socializ...

Logo, já não sou eu quem vive...

  Ele está em todos os lugares: na literatura, na música, na cultura, em cada canto do mundo. A sua Palavra nunca tem fim e nunca morreu; sempre permaneceu. Mas não conseguimos enxergar. Estamos cegos e contaminados pelo vazio. O mundo é barulhento e nos afoga em informações, a ponto de mal conseguirmos ouvir as palavras da missa, absorver o evangelho ou deixá-lo penetrar no coração sem esquecermos o que foi dito pelos sacerdotes. É uma profecia verdadeira e única: gerações passam, mas a Palavra permanece intacta. Eu precisei da dor, das quedas, do sofrimento e de encarar minha própria ruína. Rolei na lama e vi o quanto minha carne é podre, o quanto sou indigno de chamar pelo seu nome. Como Ícaro, voei alto demais e tentei alcançar o sol antes da hora, sem antes buscar o que era necessário: as palavras, o Verbo encarnado, a Eucaristia. Não se busca a luz sem aquele que é a própria luz. Como alcançar o seu rosto sem antes conhecê-lo, sem conhecer os seus amigos? Como viver sem senti...

She's a butterfly, but I'm just a shadow

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  As lembranças que contarei aqui são de um tempo não tão distante, mas dentro de mim é como se tivessem sido vividas em outrora. Um tempo em que a amizade era concreta e nada líquida, onde a literatura reinava em pequenos rolos de papel, e existiam cartas cheias de sentimentos vindos de um mundo que parece extinto. Essa não é uma história de amor romântico. Não há grandes paixões nem reviravoltas cinematográficas. Não há uma Manic Pixie Dream Girl , tampouco promessas de um final feliz entre duas pessoas que se amam como nos filmes. É uma história sobre uma amizade rara, com uma mulher real, numa realidade pé no chão, com sentimentos sinceros. Está mais próxima das páginas de O garoto, a toupeira, a raposa e o cavalo . Mas aqui, talvez seja mais justo chamar de o garoto e a borboleta . Tudo começou numa noite chuvosa. Eu a encontrei em um beco escuro. Estava frio, os pingos de chuva eram pesados e caíam como se quisessem atravessar minha alma. Naquela noite, eu não esperava por na...

Aos que caminharam comigo: minha gratidão em Cristo

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  Em espírito de humildade e fé, como católico devoto de São Francisco de Assis e de tantos outros santos que procuro imitar em suas virtudes, escrevo estas linhas como um ato de gratidão. Pois é dever do cristão, sobretudo quando provado pela cruz, reconhecer os sinais da Providência de Deus, que se manifesta nas pessoas que Ele coloca em nosso caminho. No último dia 7 de junho, fui acometido por uma pneumonia. E, após dias de internação no Hospital Estadual, recebi alta em 18 de junho. Hoje me encontro em casa, em recuperação, sustentado pela graça de Nosso Senhor Jesus Cristo. Confesso: não foi uma experiência fácil. Não desejo a ninguém os sofrimentos que enfrentei. Contudo, descobri, na dor, a força do amor que vem de Deus através do próximo. Fui fortalecido pela presença, pelas orações e pelo carinho daqueles que, de perto ou de longe, estenderam a mão. À minha paróquia, que intercedeu por mim com orações sinceras, rendo meu mais profundo agradecimento. De modo especial, ao ...

aplauso em um assento só

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  aquele dia, simplesmente aquele, em que a alvorada se desenhava trêmula sobre a pele do tempo, o vento de outono passava como uma história antiga, e embora o sol estivesse partindo, não puderam obscurecer o fulgor do instante nem ensombrecer os nossos corações. era como se o universo inteiro dançasse ao ritmo da minha memória. aquele momento em que o homem tenta, em vão, conter o tempo entre os dedos e remodelar as lembranças como Van Gogh teima em colorir a realidade com tons mais densos, mais felizes, mais seus. alguns desejam viver um só traço de eternidade nas águas cintilantes de algum paraíso burguês, sob o verniz caro de um verão de cartão-postal. mas, ao final, tudo se dissipava como névoa de fim de tarde, tão turvo e inconstante quanto os corações à beira da despedida. o meu instante, ao contrário, aconteceu no mais sagrado de um casinha: um quintal de chão vivido, onde as árvores guardam histórias em suas cascas e o ar conserva, com pudor, o cheiro das vozes que amei. ...