Postagens

Um ausente sem ausência

Imagem
    Desbravo o tempo de um pai que passou. Minha infância ainda se recorda de pequenos detalhes: seus divertimentos, suas bagunças, suas aventuras e aqueles momentos que pertencem a um tempo que não volta mais. Mesmo que revisitemos essas lembranças, nunca conseguimos viver novamente aquilo que um dia foi e já não é. Eram tardes de verão correndo pelas ruas, sentindo nos braços de uma criança a proteção de alguém que, com tudo o que viveu, ensinava e tentava blindá-la dos perigos que a vida oferece aos pequenos. A infância precisa acreditar que existe um super-herói para chamar de pai; nela não há espaço para vilões. Aquele tempo era como abraçar o inverno. Eram chegadas de lugares que já não recordo, mas cujo cheiro permaneceu preso ao vento e à memória. Ainda sinto na pele o algodão das roupas, o couro dos casacos e a presença daquelas noites que nunca mais poderão ser vividas da mesma maneira. O que ficou foi até mesmo o cheiro de um perfume ruim, mas aprendi a amar esse de...

uma ficção

Imagem
  É tão lindo e tão cintilante o teu olhar. Eu poderia gastar tantas palavras, criar tantas histórias para descrever o amor que transcrevo em meu corpo apagado e deturpado por tanta dor acumulada. Fisicamente, a minha carne caiu e continua caindo, procurando a última batida das músicas da tua banda favorita, The Lumineers, tocadas em teu antigo walkman amarelo. As tuas danças fazem-me desejar elevar as estrelas, levá-las comigo até os confins da realidade e poder lembrar do teu sorriso enquanto fazias tudo aquilo de que gostavas quando estavas comigo. Tudo parece tão mágico para quem nunca acreditou em magia. A tua presença vira a minha cabeça e faz-me questionar tudo em que acreditei durante todo este tempo. Ela é tão irreal que me pergunto o que foi colocado em ti para fazer-me prestar atenção em cada detalhe: nas calças jeans largas, nas camisetas maiores do que os teus próprios pulsos e, em ti, na pele que parece combinar mais com os ossos do que a de qualquer outra pessoa. Eu ...

Em Redenção

Imagem
  ... Existia um rasgo em seu peito. Antes, parecia apenas um fio de lã solto; porém, quando foi puxado, revelou a dor de um filho — uma dor jamais explorada, mantida no passado, guardada dentro de um velho baú. Ali repousava outro pedaço de seu coração. Foi preciso retirá-lo do fundo daquela madeira antiga e empoeirada. Era a parte que faltava em seu peito. Ainda assim, ele relutava em colocá-la de volta em seu devido lugar. Faltava fazê-la pulsar novamente, devolver-lhe a vida para que pudesse transbordar em existência. O passado daquele filho era feito de lamentos. Faltava-lhe uma figura essencial em sua vida. Essa presença, ou sua ausência, sempre esteve em todos os momentos da história, na vida de cada ser humano. Pode surgir como uma caricatura da maldade ou da bondade; pode aparecer para causar terror ou oferecer esperança a um pequeno e indefeso ser, que necessita da proteção daquela mesma figura. Há tantos filhos perdidos neste mundo, vagando por terras e mares. Há tantas ...

a queda dos murmuradores

Imagem
Vida infeliz é a do homem que murmura, Nada lhe agrada: o mundo é sempre fútil, a cultura, um monturo de misérias. que jamais descansa do próprio protesto. Vive descontente nada o satisfaz, nenhum riso lhe penetra o silêncio. Cada instante busca um bode expiatório: o tempo, o destino, a culpa alheia. Para ele, os outros são demônios vestidos de gente; o líder, o partido, o fantasma político são a raiz de todas as frustrações. Nunca olha para dentro - onde a cura começa. Pergunta: será o líder sindical a razão de suas dores, ou é Cristo que não foi permitido entrar? Nada que venha do céu passa por suas mãos; recusa-se o remédio, acolhe-se a acusação. Como explicar que se reza com os lábios e se cuspem as promessas? Que se aclama um homem e se perdoa a mentira? Que se defende a vida com intolerância, ou se indica salvação negada a quem pensa diferente? Há um cristianismo de porta aberta e silêncio, e há um outro que bate o punho e vende raiva. Não é santo o q...

estagiário

Imagem
...   Sexta-feira, sete e meia da manhã, acordo, ligo o computador e espero o café da minha mãe. Às oito já começam os atendimentos. Enquanto isso, deixo sempre um livro aberto ao lado da aba, para ler nos momentos de pausa. Não sou rápido como os outros, mas sigo no meu ritmo, no meu limite. E, no fundo, acho que isso basta. O home office, para mim, foi uma das maiores invenções que já existiram. Trabalhar em casa me dá um tipo de conforto que nenhum outro lugar poderia dar. Faço o sinal da cruz e desejo não sentir um peso ao fazer o que é necessário.  Confesso que muitas vezes faço quase no automático. Sei pouco do que deveria saber e, quando não sei, improviso. Às vezes falta orientação, às vezes o sistema falha, e fico com a sensação de que preciso inventar o caminho sozinho. Pode ser que eu me cobre demais, mas há dias em que me sinto perdido, incapaz. E mesmo assim, sigo. No remoto, encontro segurança. Eu não gosto de barulho, de aglomeração, de me sentir obrigado a soci...

Logo, já não sou eu quem vive...

  Ele está em todos os lugares: na literatura, na música, na cultura, em cada canto do mundo. A sua Palavra nunca tem fim e nunca morreu; sempre permaneceu. Mas não conseguimos enxergar. Estamos cegos e contaminados pelo vazio. O mundo é barulhento e nos afoga em informações, a ponto de mal conseguirmos ouvir as palavras da missa, absorver o evangelho ou deixá-lo penetrar no coração sem esquecermos o que foi dito pelos sacerdotes. É uma profecia verdadeira e única: gerações passam, mas a Palavra permanece intacta. Eu precisei da dor, das quedas, do sofrimento e de encarar minha própria ruína. Rolei na lama e vi o quanto minha carne é podre, o quanto sou indigno de chamar pelo seu nome. Como Ícaro, voei alto demais e tentei alcançar o sol antes da hora, sem antes buscar o que era necessário: as palavras, o Verbo encarnado, a Eucaristia. Não se busca a luz sem aquele que é a própria luz. Como alcançar o seu rosto sem antes conhecê-lo, sem conhecer os seus amigos? Como viver sem senti...

She's a butterfly, but I'm just a shadow

Imagem
  As lembranças que contarei aqui são de um tempo não tão distante, mas dentro de mim é como se tivessem sido vividas em outrora. Um tempo em que a amizade era concreta e nada líquida, onde a literatura reinava em pequenos rolos de papel, e existiam cartas cheias de sentimentos vindos de um mundo que parece extinto. Essa não é uma história de amor romântico. Não há grandes paixões nem reviravoltas cinematográficas. Não há uma Manic Pixie Dream Girl , tampouco promessas de um final feliz entre duas pessoas que se amam como nos filmes. É uma história sobre uma amizade rara, com uma mulher real, numa realidade pé no chão, com sentimentos sinceros. Está mais próxima das páginas de O garoto, a toupeira, a raposa e o cavalo . Mas aqui, talvez seja mais justo chamar de o garoto e a borboleta . Tudo começou numa noite chuvosa. Eu a encontrei em um beco escuro. Estava frio, os pingos de chuva eram pesados e caíam como se quisessem atravessar minha alma. Naquela noite, eu não esperava por na...