uma ficção

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É tão lindo e tão cintilante o teu olhar. Eu poderia gastar tantas palavras, criar tantas histórias para descrever o amor que transcrevo em meu corpo apagado e deturpado por tanta dor acumulada. Fisicamente, a minha carne caiu e continua caindo, procurando a última batida das músicas da tua banda favorita, The Lumineers, tocadas em teu antigo walkman amarelo. As tuas danças fazem-me desejar elevar as estrelas, levá-las comigo até os confins da realidade e poder lembrar do teu sorriso enquanto fazias tudo aquilo de que gostavas quando estavas comigo.

Tudo parece tão mágico para quem nunca acreditou em magia. A tua presença vira a minha cabeça e faz-me questionar tudo em que acreditei durante todo este tempo. Ela é tão irreal que me pergunto o que foi colocado em ti para fazer-me prestar atenção em cada detalhe: nas calças jeans largas, nas camisetas maiores do que os teus próprios pulsos e, em ti, na pele que parece combinar mais com os ossos do que a de qualquer outra pessoa.

Eu poderia passar horas, dias, escrevendo para aquela que despertou em mim o mais interessante dos sentimentos: a arte de escrever sobre ela ou os pesadelos que ela poderia me causar.

Quão profundo deve ser partilhar o próprio fim com uma única pessoa, aquela que mais amamos. Compartilhar o acontecimento que mais me fascina e que amo desesperadamente: o da minha libertação, rumo ao que desconheço e ao encontro daquilo que, de alguma forma, já conheço. Ainda assim, quem eu amo permanecerá presa neste mundo, sem quem a escreva todos os dias, em cada detalhe.

O teu sorriso cheio de dentes, que tanto amo por serem tão limpos - pode parecer estranho, mas eu amo amar estranhamente e elogiar o inesperado. As tuas danças malucas, as roupas que parecem pertencer a tantas personalidades, as músicas desconhecidas, as manias e as características tão únicas... Jamais encontrei isso em outro ser. Talvez porque eu conheça mais personagens da ficção do que pessoas reais. Quando se trata de quem amamos, tudo se transforma em elogio e em matéria encantadora para a escrita.

O único detalhe é que ela talvez não exista, e eu já não tenho absoluta certeza disso. É uma loucura escrever sobre a ficção e, ainda assim, sentir todos os detalhes, criar o irreal na imaginação, amar uma invenção e tudo aquilo que existe dentro dela.

Em breve esquecerei este texto e fingirei que nunca o escrevi, pois já bastam as minhas próprias loucuras.

Talvez eu me arrependa de ter escolhido viver nos confins de uma terra sem florestas, sem montanhas, sem uma cabana de madeira, com uma xícara de chá nas mãos e um computador no qual digito sem parar, sem tempo para terminar. Longe de todos, caminhando em silêncio absoluto, meditando e amando aquilo em que alguns não acreditam - ou muitos apenas fingem acreditar, iludidos.

Talvez eu também me arrependa da escolha de me afastar do amor de Damien Chazelle, de um par, daquilo que quase todos sonham um dia possuir. Mas o drama me fascina, a morte me alucina, e talvez a minha especialidade seja falar de amor sem ter alguém para amar a dois; ou amar uma criação feita por mim e pelo Arquiteto do Universo, outro sobre quem amo escrever.

Foi a esse amor que me entreguei de corpo nu e alma nua, sem as amarras do mundo.

E será que um dia poderei amar a dois? Contemplar os encantos de um presente que o Arquiteto talvez tenha desenhado para mim? Talvez, um dia, Ele me entregue uma de Suas obras. Só desejo não quebrá-la tão minuciosamente como fiz da última vez, com passos tolos e uma entrega falsa, sem seguir as partituras do Músico do Universo, cego diante da iluminação de Sua arquitetura.

Amar infantilmente parecia merecer a morte sem honra: um tiro à queima-roupa, um punhal atravessando minhas palavras e o meu coração. Talvez fosse isso que libertaria o mundo de um psicopata que destruiu a arte esculpida no mais belo mármore criado pelo... você sabe quem.

h. 

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