Um ausente sem ausência
Desbravo o tempo de um pai que passou. Minha infância ainda se recorda de pequenos detalhes: seus divertimentos, suas bagunças, suas aventuras e aqueles momentos que pertencem a um tempo que não volta mais. Mesmo que revisitemos essas lembranças, nunca conseguimos viver novamente aquilo que um dia foi e já não é. Eram tardes de verão correndo pelas ruas, sentindo nos braços de uma criança a proteção de alguém que, com tudo o que viveu, ensinava e tentava blindá-la dos perigos que a vida oferece aos pequenos. A infância precisa acreditar que existe um super-herói para chamar de pai; nela não há espaço para vilões.
Aquele tempo era como abraçar o inverno. Eram chegadas de lugares que já não recordo, mas cujo cheiro permaneceu preso ao vento e à memória. Ainda sinto na pele o algodão das roupas, o couro dos casacos e a presença daquelas noites que nunca mais poderão ser vividas da mesma maneira. O que ficou foi até mesmo o cheiro de um perfume ruim, mas aprendi a amar esse detalhe sem julgá-lo, porque quando amamos alguém não queremos apagar aquilo que fez parte da sua existência. Não é pela qualidade do momento, mas por quem estava presente. Mudar esse detalhe talvez fosse apagar uma parte dele da minha vida, talvez apagar uma parte daquele pequeno filho que dividia um pai com outros quatro irmãos. Todos nós compartilhávamos a mesma pessoa, recebíamos o amor que ele conseguia oferecer e aprendemos a aceitá-lo como era: humano, imperfeito e verdadeiro.
Como nos filmes de drama, a vida também possui suas tragédias. Em determinado momento da nossa história, os adultos podem nos roubar um tempo que jamais será recuperado e nos entregar uma ausência que permanece. Assim como não recuperamos o sono perdido, o sonho esquecido ou uma oportunidade que passou, também não recuperamos o tempo entre um pai e um filho. Restam fragmentos, lembranças incompletas e perguntas que surgem quando olhamos para trás: o que mais eu poderia ter vivido? E se, no meio desse tempo que não existiu, eu tivesse perdido tudo pela morte? São projeções criadas pela nossa própria mente, ilusões de um passado diferente, porque não existe maneira de controlar o tempo, as estações ou os caminhos da vida.
As palavras “deveria”, “poderia” e “talvez” muitas vezes são apenas tentativas de negar aquilo que já foi escrito pela nossa história. Não podemos mudar o filme que assistimos no cinema da existência, nem misturar cenas para criar uma nova versão. Podemos apenas aceitar que aquele filme foi o que foi. E se ele foi triste ou bonito, isso não apaga a importância de tê-lo vivido. O que importa é que existiram sentimentos, movimentos, encontros e amor.
Com meu pai, tudo o que eu precisava aprender estava naquele tempo. Nada passou despercebido: nem seus momentos de loucura, nem suas tristezas, nem a fragilidade escondida no coração de um homem que também carregava suas próprias dores. Eu vivi o distanciamento, a frieza e os momentos em que, no fundo da minha alma, sentia que poderia perdê-lo. E depois o reencontrei dentro de mim, na memória e nos sentimentos, como um bom pai. A ele entreguei o meu perdão por tudo aquilo que precisava ser perdoado, sem hesitação.
No meio destas palavras, destas letras feitas de lembranças e saudade, percebo que não sinto apenas ausência, porque o amor preenche os espaços que a distância deixou. Quando se ama verdadeiramente, não se experimenta apenas um sentimento, mas todos eles: a dor, a alegria, a falta, a gratidão e a esperança. O que me resta é pedir desculpas, não por culpa, mas porque existem palavras que precisam nascer do coração. Todos um dia merecem aplausos de pé, um obrigado e um perdão.
Pai, perdoe-me por não ter nascido com saúde, por ter chegado ao mundo carregando dificuldades e pelo trabalho que dei quando era criança. Perdoe-me pelo tempo em que não consegui ser o filho que eu gostaria de ter sido. Talvez tenham roubado de nós o tempo em que você deveria apenas ser pai, e eu apenas deveria ser filho. Perdoe minhas orações esquecidas, meus momentos de raiva, minhas palavras cruéis, a falta de paciência e o perdão que demorou a chegar. Perdoe também as vezes em que criei uma imagem diferente de você, imaginando um pai que existiria apenas dentro das minhas expectativas, porque hoje compreendo que eu já tinha o pai que precisava ter.
Não se muda aquilo que se ama. Não existem outras imagens, outras versões ou outros caminhos. Você foi bom, é bom e me entregou aquilo que podia entregar: seu tempo, seus ensinamentos, suas falhas, seus acertos e seu amor. Ainda carrego o abraço dos invernos e dos verões, os momentos que parecem distantes, mas que continuam vivos dentro de mim.
Agradeço pelo tempo, pelo aprendizado, pelo amor e por tudo aquilo que você entregou sendo simplesmente quem sempre foi: meu pai. E desejo entregar ao mundo aquilo que recebi de você: ser um filho sem amarras, um filho livre para amar, compreender e perdoar. Um filho capaz de oferecer ao pai o amor que também se oferece ao Criador.
Talvez este seja o nosso verdadeiro fim: o dia em que todos nós cairemos nos braços da divina presença. Um dia, um pai entregará o filho a outro Pai. Aquele que me deu tudo me entregou o tempo, a esperança, a dor, a vida, a felicidade e momentos tão únicos que mal consigo tocar. E também entregou a você a missão de ser meu pai. Por isso sou eternamente grato àquele que nos criou, que criou você como pai e a mim como filho.
E quando todas as palavras forem poucas, restará apenas dizer: eu amo você, pai.
h.
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