Em Redenção

 

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Existia um rasgo em seu peito. Antes, parecia apenas um fio de lã solto; porém, quando foi puxado, revelou a dor de um filho — uma dor jamais explorada, mantida no passado, guardada dentro de um velho baú. Ali repousava outro pedaço de seu coração. Foi preciso retirá-lo do fundo daquela madeira antiga e empoeirada. Era a parte que faltava em seu peito. Ainda assim, ele relutava em colocá-la de volta em seu devido lugar. Faltava fazê-la pulsar novamente, devolver-lhe a vida para que pudesse transbordar em existência.

O passado daquele filho era feito de lamentos. Faltava-lhe uma figura essencial em sua vida. Essa presença, ou sua ausência, sempre esteve em todos os momentos da história, na vida de cada ser humano. Pode surgir como uma caricatura da maldade ou da bondade; pode aparecer para causar terror ou oferecer esperança a um pequeno e indefeso ser, que necessita da proteção daquela mesma figura.

Há tantos filhos perdidos neste mundo, vagando por terras e mares. Há tantas vidas lançadas ao vento, flutuando sem destino, sem um lugar onde repousar. Assim sua alma se sentia: abandonada ao relento.

A dor possui a estranha capacidade de transformar um soco em um simples sopro, um golpe violento em um leve peteleco. São tantas as feridas provocadas pela vida que a natureza humana aprende a endurecer. Evita-se aquilo que causa sofrimento, acreditando que a melhor maneira de lidar com um problema é impedir que ele exista, afastando-o a qualquer custo. Contudo, se o mundo for deixado sem resistência, ele não hesitará em desfigurar um homem de tanto golpeá-lo, até deixá-lo ajoelhado.

E, se esse homem permanecer esperando que alguém apareça para colocá-lo de pé, talvez deva primeiro estender o próprio punho. Se todos fossem apenas crianças da Terra do Nunca, o "nunca" seria a única resposta. Entretanto, nunca estiveram verdadeiramente sozinhos. Há uma figura que caminha entre os pilares do tempo e do espaço, aguardando-os de braços abertos. Ela somente descansará quando todos descansarem em suas mãos.

Essa aparição já não lhe causava dor. O sofrimento estava no caminho que ela percorria: um vale de sombras e de morte. Não havia como tocar-lhe o rosto, nem como retirá-la daquele abismo, a não ser que ela mesma desejasse sair. Ao vê-la caminhar sem vestes, suas lágrimas romperam qualquer resistência. Naquele assustador labirinto, o menor dos problemas não era a solidão da caminhada, mas o pesadelo que a acompanhava. Uma figura feminina, distorcida, envolta em um manto rasgado, mantinha as unhas cravadas em seus pés, impedindo-a de caminhar livremente. Ela permanecia presa, cega pelas próprias aflições.

No entanto, havia apenas uma coisa capaz de libertá-la: o amor. A mais simples das virtudes e, ao mesmo tempo, a mais difícil de ser vivida. Quantas figuras permanecem solitárias, à beira da morte da própria alma, por se entregarem ao vazio, tornando-se apenas pertencentes ao mundo e prisioneiras dele? Assim acabam transformando-se exatamente naquilo que jamais desejaram ser: um mero detalhe na vida daquele pequeno e indefeso filho.

O caminho de um homem consiste em desprender-se das ilusões e viver no presente. Se lhe foi concedido ser uma figura na vida de um filho, que seja exatamente aquilo que nasceu para ser, livre das correntes que o aprisionam. O pecado não pertence apenas ao campo do divino; ele é concreto, palpável, sentido na carne e nas consequências da vida. A ausência do pecado não significa apenas alcançar os céus. A ausência dos erros transforma a vida daqueles que caminham ao redor. Lutar diariamente para tornar-se alguém melhor muda a realidade de todos. Essa é a maior responsabilidade humana: não se tornar um vilão e não permitir que outros se transformem em monstros.

Tudo aquilo que viveu encontrou sentido na Cruz do Madeiro. Um homem de carne e osso entregou a própria vida para mostrar que era possível permanecer íntegro mesmo diante da violência. Mostrou que um homem pode não mentir, pode seguir adiante com o rosto preparado para suportar socos e chutes. Diante da dor, resta apenas uma escolha: suportá-la ou esconder-se dela.

No fim, ninguém descansa sozinho. O verdadeiro descanso acontece quando outros também encontram repouso. Há figuras que realmente honram o nome de pai. A paternidade não pertence apenas ao sangue. Um padre pode ser pai para uma criança. Um irmão pode exercer esse papel. Até mesmo um cachorro pode representar o afeto que uma criança jamais recebeu.

Foi nessa caminhada que ele compreendeu algo profundo: Cristo toma para si os filhos dos homens. Não para roubá-los, mas para oferecer-lhes o descanso e o alimento que tantas figuras paternas não conseguiram entregar. Ninguém permanece órfão quando encontra Cristo. Foi Ele quem fez existir homens como Dom Bosco. Foi o próprio Cristo quem o tomou para Si quando lhe faltou um pai.

Nas sombras, foi por Cristo que ele clamou. Em todos os momentos de sua vida, apenas um homem ocupava seus pensamentos: o Nazareno. Por isso não carregava ódio. Cristo lhe ensinou o perdão para que não continuasse carregando aquela dor dentro do peito. Ensinou-o a amar de uma forma que jamais havia sido amado, oferecendo ao próximo justamente aquilo que um dia lhe faltou.

Aprendeu também que jamais pisaria para trás. Não voltaria ao passado. Ainda que fosse deixado diante dos portões do inferno, não recuaria. Permaneceria firme, exatamente onde estivesse, impedindo que o mundo o derrubasse.

Entretanto, um filho não é culpado por não procurar aquele que deveria tê-lo procurado primeiro. É a figura paterna quem deve buscar os filhos, reconstruir o que ficou destruído e fechar o peito que permaneceu aberto. Assim como um dia ele gritou por Cristo, perguntando onde Ele estava durante toda a sua solidão, compreendeu que também era hora de fazer o mesmo consigo mesmo: compartilhar o próprio fardo, seja com outras pessoas, seja com o próprio Cristo, que convida todos a lançarem sobre Ele seus pesos.

Cristo somente descansará quando todos encontrarem descanso em Seu colo.

E permanece a pergunta: onde estavam aqueles que deveriam apontar para a Cruz? Onde estão aqueles que deveriam conduzir outros até ela? De que servem tantas Bíblias abertas, se a vida permanece fechada? Ensinem aquilo que nunca ensinaram a ninguém. Porque tudo o que ele aprendeu veio de Deus. Nunca ouviu verdadeiramente a voz daqueles que estiveram ao seu lado, chamando-o para encontrar o sentido da vida ou para evitar os mesmos erros das figuras que marcaram sua história.

Seu maior desejo nunca foi extraordinário. Queria apenas nunca mais ouvir mentiras saindo da boca dos homens. Foi doloroso perceber quão pouco havia para admirar em certas figuras. Descobriu, porém, que a presença física nunca foi sinônimo de paternidade. E, acima de tudo, desejava apenas que tudo aquilo que alimentava a dor cessasse, para que nenhum homem precisasse regredir diante das próprias feridas.

Nos livros e nos filmes, percebeu que aqueles que destroem a vida de seus pequenos não deveriam permanecer diante de seus olhos como exemplos. Não se dorme ao lado dos próprios demônios, nem se faz morada com os próprios pecados. É preciso reduzi-los a cinzas e aprisioná-los no limbo, para que jamais retornem. Em contrapartida, compreendeu que a verdadeira figura paterna é revelada de inúmeras formas. Não é apresentada por um único homem, mas refletida em muitos pais que decidiram amar. Cristo, acima de todos, ensina o que significa ser Pai. Diretores, autores e artistas também testemunham, por meio de suas histórias, fragmentos dessa verdade. Tudo o que resta ao homem é abrir o coração e dizer "sim" ao que lhe é revelado pelas palavras escritas ou pelas imagens projetadas na tela de um cinema.

Nada se aprende completamente sozinho. Toda vida é moldada pelo encontro com outra vida. É preciso que uns sustentem os outros para que todos caminhem em direção ao horizonte dourado, ao alvorecer. Para isso, torna-se necessário desprender-se dos apegos, dos bens e dos sonhos que aprisionam. Esperar, por si só, nunca foi a resposta; a resposta sempre esteve na ação das próprias mãos.

Foi observando pequenos gestos e palavras que ele descobriu do que um pai é capaz. Há poder na oração de um pai. Há força na fúria de seus olhos quando contempla os filhos perdidos caminhando pelo vale das sombras. Há firmeza na correção quando vê seus filhos negando o amor e escolhendo o caminho da vingança. Esse é o peso da paternidade: sofrer pelas escolhas daqueles que ama sem deixar de amá-los.

Foi então que compreendeu que Cristo carregou essa mesma responsabilidade. Somente um pai é capaz de compreender, ainda que minimamente, a dor do próprio Deus ao contemplar Seu Filho sendo entregue à morte e ferido por amor aos homens.

Também aprendeu que um pai nem sempre entrega ao filho aquilo que ele pede, mas oferece aquilo de que realmente necessita. Um pai conhece o tempo da caridade, da firmeza e da gentileza. Sabe quando acolher, quando corrigir e quando permanecer em silêncio. Sabe entregar a própria vida por seus filhos, sem fazer distinção entre eles.

Contudo, há um Filho que aguarda, paciente, todos aqueles que um dia chamou para Si. Quando chegar o momento, chamará cada um sem alarde, sem despedidas definitivas, apenas para conduzi-los ao descanso eterno.

Ele compreendeu essas verdades porque teve a coragem de pedir que lhe fossem reveladas. E, quando as respostas finalmente chegaram, todas as perguntas perderam a força. Já não restava acusação, nem ressentimento, nem desejo de cobrar aquilo que jamais recebeu. Restavam apenas as palavras que libertam qualquer coração:

"Eu te perdoo. Até logo. Nos encontraremos novamente pelas estradas da esperança e do amor."

H.a. 

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