aquele dia, simplesmente aquele, em que a alvorada se desenhava trêmula sobre a pele do tempo, o vento de outono passava como uma história antiga, e embora o sol estivesse partindo, não puderam obscurecer o fulgor do instante nem ensombrecer os nossos corações. era como se o universo inteiro dançasse ao ritmo da minha memória. aquele momento em que o homem tenta, em vão, conter o tempo entre os dedos e remodelar as lembranças como Van Gogh teima em colorir a realidade com tons mais densos, mais felizes, mais seus. alguns desejam viver um só traço de eternidade nas águas cintilantes de algum paraíso burguês, sob o verniz caro de um verão de cartão-postal. mas, ao final, tudo se dissipava como névoa de fim de tarde, tão turvo e inconstante quanto os corações à beira da despedida. o meu instante, ao contrário, aconteceu no mais sagrado de um casinha: um quintal de chão vivido, onde as árvores guardam histórias em suas cascas e o ar conserva, com pudor, o cheiro das vozes que amei. ...
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