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crise

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Crise No horror do domingo funéreo,  À janela, observo o outono começar.  Minha mente, em riso mórbido,  Incendeia as cortinas sem hesitar. Jamais serei reconhecido novamente,  Esta casca de carne, uma caricatura vã,  Massa de músculos necrosados, grito iminente, Quem ousaria encarar tal engano humano? Para os normais, corpo reluzente é promessa,  Riso das ninfas em campos elísios, em sede.  Mas eu desejo corpos cortados em tristeza, Degolados nas terras do exílio, sob a rede. Assim me encontro,  Imerso no pálido reflexo da janela,  Afundado na vidraça como num sepulcro,  Sob calafrios febris que a febre revela. Virá a morte, ou não?  Será trágica, ou grandiosa em seu fim?  Anseio tanto pelo dia em que o chão  Se abrirá para mim, num destino sem fim. H.  

o que restou de Madeleine

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Todos os dias desperto envolto em um cobertor de melancolia, sentindo aquela sensação melódica, enquanto Erik Satie desperta seu piano ao fundo, atravessando as portas de vidro, rompendo a quarta parede deste cenário teatral escolhido por mim: o Teatro Municipal de São Paulo. Recordo-me da primeira vez que me vi diante desse monumento colossal, embora não tenha adentrado. Parece ser o ambiente condizente com minha natureza. Nasci distante de tudo o que considero vital em minha existência: a música, o teatro, a literatura, mestres que me ensinaram a arte da escrita. Foram os mortos que me instruíram, pois os vivos apenas me apresentaram palavras, sem jamais ensinar-me a utilizá-las. E agora, adulto audaz, compreendo por que jamais me mostraram este mundo fantástico. O que posso dizer sobre os ditos adultos, sempre tecendo mentiras por onde passam, dentro de seus lares, nas esquinas, nos edifícios públicos e talvez até nos consultórios de psicólogos? Em todos os lugares que percorri, a m...

passageiro

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  Não sou mais aquele que implora permanência ou exige que fiquem, sou quem pede para ser apenas passageiro, partindo a todo instante, sem ver, sem pensar, já na porta para talvez nunca mais voltar, ou quem sabe, retornar um dia. As palavras que escolho são construídas para deixar marcas, mas saiba, meu coração pacientemente se insinua em suas vidas, e todas as almas percebem a mensagem que trago. Apenas ao olhar para todos, consigo transcender além do que sinto, inevitavelmente, talvez porque sinto grandiosamente além do suportável. Tudo o que busco sentir não são os sentimentos de um único indivíduo, de uma única alma, mas sim captar cada coração que cruza meu horizonte, detectando minuciosamente as emoções nos detalhes que cercam meu ser. No final, o que desejo experimentar está além da galáxia em que vivemos e das realidades que nos cercam. Estou amando este momento, estou amando todas e todos, e cada instante que um dia vivi, mesmo o que era sombrio se transformou em uma melod...

diálogos e desdobramentos do passado

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  Sobre o amor que ele sentia, permitam-me asseverar que as imperfeições não existem; somos, em essência, perfeitos, criação divina e, aos olhos da criação, mais que perfeitos. Somos a semelhança de toda a beleza, da espécie mais rara em extinção à estrela perdida mais bela do espaço. Exigir dos outros que sejam como queremos é além de nossa natureza, pois nem nós mesmos o somos. Buscamos aceitação para nossas perfeições e a beleza profunda de nossos detalhes. Não almejamos que aceitem nossas imperfeições, que sejamos moldados às expectativas alheias; somos, na realidade, tudo e o que resta? É aceitar a consciência de que tudo está interligado, corações e almas perfeitos. Entretanto, é triste observar que nossas mentes são nuvens escuras, incapazes de enxergar nossa perfeição, a beleza de nossas almas. Desacordo inteiramente com minhas conclusões passadas; devemos nos tornar aquilo que desejamos ver no outro para alcançar compreensão perfeita. A obscuridade nos transforma em nossas...

3 de dezembro de 2023

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Os dias escorrem pelas mãos como água suja, o relógio gira como uma navalha afiada cortando o tempo. Os anos avançam, e eu, acumulando desilusões como cicatrizes, encaro toda essa merda sozinho, despejando o que me faz mal, eliminando o lixo que se acumula na alma. Trabalho em projetos que, aos meus olhos, são como pinturas rabiscadas por um bêbado. Sinto-me regredindo, enquanto o valor do que crio se dissolve na própria essência. O pior é a sensação de que minhas palavras e construções são inúteis para o mundo lá fora. Não sou uma canção que todos possam ouvir, nem um grande artista. Sou apenas um escriba de minhas próprias desgraças, transformando em arte as merdas que cometi e que o mundo comete comigo. Escrevo textos e poemas melhores que este, mas não consigo erguer muralhas de amizades verdadeiras. As tentativas murcharam, sem laços fortes, como se a maldição da geração fosse a de chorar a solidão através de telas. A comunicação? Um cadáver, algo enterrado nas entranhas do passad...

outro amor

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Naquela manhã de domingo, ao som leve de "Skinny Love" repercutindo pelo despertador, me vi envolta pelos assombros de noites passadas, observando tramas impossíveis de se desenrolarem. Eram detalhes, nuances, que apenas almas afinadas à nossa percepção peculiar poderiam deslindar; pormenores minuciosos que se desdobraram diante de nossos olhos. O que eu não poderia ter, ousei pedir: um amor frágil, destinado a perdurar apenas por mais um ano. Tais eram as mensagens que lancei ao vento, enigmáticas, esperando serem decifradas pelos olhos atentos de quem compartilhava meu universo. E o máximo que consegui articular, aquilo que sempre proferi sem razão aparente, o que permanecia inaudível mas ansiava por ser ouvido, era um simples pedido de desculpas. h.